Baiano no registro civil, o ex-presidente Itamar Franco, que morreu neste sábado (02) em São Paulo. Ele estava internado no Hospital Israelita Albert Einstein, desde o dia 21 de maio para tratar de leucemia. Desde então, ele permanecia licenciado de suas atividades no Senado. Nos últimos dias, o ex-presidente apresentou um quadro de pneumonia grave e foi transferido para a UTI. Na manhã de ontem sofreu um derrame.
Mesmo entre os mais críticos, Itamar costumava ser reconhecido pela retidão ética. Igual reconhecimento ele sempre cobrou em relação ao legado da estabilidade econômica do País, com o lançamento do Plano Real durante seu governo, e política, com a transição bem sucedida após o desastroso desfecho da gestão Collor.
Com seu indefectível topete, o ex-presidente também chamou muita atenção pelo estilo intempestivo, muitas vezes enigmático. Protagonizou situações embaraçosas e embates memoráveis. Se dizia nacionalista, mas abusava mesmo era das retóricas e referências às "montanhas de Minas".
Como político, o engenheiro Itamar gostava dos cálculos bem pessoais. Orgulhava-se de ter sido fundador do MDB, posterior PMDB, mas não fazia cerimônia: deixava o partido toda vez que seus interesses eram contrariados.
O ex-presidente também melindrava facilmente e não raro surpreendia aliados com rompantes de fúria. Atribui-se a Tancredo Neves a frase de que Itamar guardava o "ódio na geladeira". Em um ponto, porém, detratores e apoiadores concordam: na política, o acaso costumava conspirar a seu favor.
Carreira política
Itamar nasceu em 28 junho de 1930 a bordo de um navio de cabotagem, no mar entre o Rio de Janeiro e Salvador. A mãe, dona Itália Cautier, havia ficado viúva de Augusto César Stiebler Franco pouco antes do nascimento do filho e o registrou na capital baiana, onde morava um tio.
Mas Itamar cresceu e tomou gosto pela política em Juiz de Fora (MG), origem de sua família. Estudou no Granbery, o mais tradicional colégio da cidade da Zona da Mata mineira. Na rigorosa instituição, vinculada à Igreja Metodista, se tornou destaque do time de basquete.
Concluiu o curso Engenharia Civil em 1955 e naquele mesmo ano estreou na política se filiando ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Em vão, tentou se eleger vereador em 1958 e vice-prefeito, em 1962. Alcançou o primeiro cargo público - a prefeitura da cidade - cinco anos depois, já filiado ao antigo MDB após o golpe militar de 1964 e o estabelecimento do bipartidarismo. Ficou no Executivo municipal até 1971. No ano seguinte, conquistou um novo mandado na prefeitura, mas em 1974 renunciou e foi eleito senador por Minas Gerais.
Já no PMDB, após o restabelecimento do pluripartidarismo, Itamar foi reeleito para mais um mandato de senador em 1982, na chapa que levou Tancredo Neves ao governo de Minas. Em 1986, deixou o PMDB e filiou-se ao PL para disputar o governo de Minas. Acabou derrotado justamente pelo peemedebista Newton Cardoso, que havia lhe fechado as portas no antigo partido.
Itamar voltou ao Senado, participou dos trabalhos da Assembleia Constituinte, mas antes de encerrar o mandato aceitou o convite do então jovem governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello, para compor como vice a chapa vitoriosa na campanha presidencial de 1989. O senador por Minas deixou então o PL para ingressar no obscuro Partido da Reconstrução Nacional (PRN).
A mineirice e a volta do Fusca
As rusgas com Collor começaram ainda na campanha. Tanto que o presidenciável teria solicitado uma consulta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para saber se poderia trocar seu candidato a vice.
"República do pão de queijo" - Com o impeachment, Itamar assumiu formalmente a Presidência em dezembro de 1992. Já havia se desligado do PRN e procurava cada vez mais acentuar as diferenças com o ex-presidente, acossado por uma sucessão de denúncias de corrupção.
Propôs uma política de entendimento nacional, mas sua gestão derrapava na escolha do primeiro escalão. Itamar levou para o primeiro escalão da administração federal antigos companheiros de Juiz de Fora e seu governo passou a ser conhecido como a "república do pão de queijo". Nos pronunciamentos oficiais à nação, adotou o bem mineiro "Moços e moças" e estimulou o relançamento do modelo Fusca.
Itamar também inaugurou no seu governo presidencial uma nova forma de tratar denúncias de corrupção. Em novembro de 1993, afastou seu então chefe de Casa Civil, Henrique Hargreaves, para que ele pudesse provar que era inocente das acusações de irregularidades no exercício do cargo. O ministro e amigo voltou ao posto meses depois. Desde então, a "solução Hargreaves" sempre costuma ser lembrada durante períodos de crise no primeiro escalão.
Para cientistas políticos, o momento crucial do governo Itamar, porém, se dá mesmo com a chegada de Fernando Henrique Cardoso, que assume o Ministério da Fazenda e sua equipe econômica lança em março de 1994 a Unidade Real de Valor (URV) - índice que fez a transição do regime inflacionário para o da estabilidade econômica até o lançamento da nova moeda nacional, o real.
"Itamar foi um personagem errático, seu acerto foi chamar o Fernando Henrique Cardoso", avalia o professor de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Carlos Ranulfo. Já para Rubem Barboza Filho, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Itamar demonstrou nesse episódio "enorme cálculo político". "Uma aposta que só um político audacioso poderia fazer", observou.
Sucesso do Real impulsionou eleição de FHC
O sucesso do plano econômico impulsionaria a eleição de FHC naquele ano. Itamar ganhou como prêmio as embaixadas brasileiras em Portugal e na Organização dos Estados Americanos (OEA), mas sonhava mesmo era em voltar ao Palácio do Planalto. Ele se sentiu traído quando o Congresso aprovou a reeleição e rompeu relações políticas com seu ex-ministro em 1998. Itamar acusou Fernando Henrique de interferir na convenção extraordinária do PMDB, que lhe tirou a chance de disputar a Presidência naquele ano.
Desta vez tendo como vice Newton Cardoso, Itamar então se aventura na disputa pelo governo de Minas e derrota o tucano e então candidato à reeleição Eduardo Azeredo, no segundo turno. Sua gestão é marcada pela determinação oposicionista ao presidente reeleito, pelos atos espalhafatosos e a frouxidão fiscal.
Já nos primeiros dias de mandato, em janeiro de 1999, o governador Itamar decreta moratória de sua dívida com a União. Passa a cobrar um ajuste de contas alegando que o Estado nos anos anteriores teria assumido investimentos de responsabilidade do governo federal, como a recuperação e manutenção de BR´s.
O arroubo do ex-presidente provocou um abalo nos mercados financeiros internacionais, fazendo despencar as cotações dos títulos da dívida externa brasileira, num cenário que antecedeu a desvalorização do real. A união reage determinando a retenção de repasses do Fundo de Participação dos Estados (FPE) para Minas.
As relações com Lula e Fernando Henrique
AAssim que assumiu o Palácio da Liberdade, Itamar de pronto empreendeu também uma cruzada política e foi à Justiça para anular um acordo fechado no governo anterior, no qual acionistas minoritários da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) - as americanas Southern Electric e AES - tinham poder para vetar decisões estratégicas da empresa controlada pelo governo estadual.
Sua administração ficou ainda marcada pela quixotesca operação militar contra a privatização de Furnas Centrais Elétricas. No segundo semestre de 1999, Itamar ordenou o envio de 2,5 mil homens da Polícia Militar para exercícios de guerra na represa localizada na cidade de Capitólio, no sudoeste de Minas. Ameaçou até desviar rios para impedir a venda da estatal. A manobra militar rendeu manchetes e Itamar foi alvo de chacotas na imprensa nacional.
Ele também flertou com movimentos de sem-terra e, para fustigar FHC, no ano seguinte ameaçou enviar tropas da PM para impedir a presença de soldados do Exército que protegiam as entradas da fazenda Córrego da Ponte - de familiares do tucano -, em Buritis (MG). Soldados foram deslocados para a portaria da propriedade com o objetivo de evitar eventual invasão de integrantes do MST. No fim das contas, de prático, Furnas não foi privatizada, o PT acabou deixando o governo e a dívida do governo mineiro com a União foi novamente repactuada no início de 2000. No fim de seu mandato, sem dinheiro para pagar o 13º salário do funcionalismo estadual, o então governador foi obrigado a uma reconciliação com o presidente Fernando Henrique. Após a costura de um acordo que previa a transferência da administração de estradas federais para o Estado, FHC foi recebido com tapete vermelho no Palácio da Liberdade. Em troca, garantiu repasse de recursos para o pagamento do 13º. A Córrego da Ponte foi vendida anos depois.
No plano federal, Itamar apoia a eleição do petista Luiz Inácio da Silva e como prêmio ganha o cargo de embaixador do Brasil na Itália - posto que ocupou nos anos de 2004 e 2005. O ex-presidente, porém, costumava se ausentar por longos períodos do renascentista e luxuoso Palazzo Doria Pamphili - imóvel que abriga a representação brasileira em Roma. Itamar deixou a embaixada na Itália e rompeu de vez com Lula depois que seus apadrinhados foram retirados do comando de Furnas. O ex-presidente nunca escondeu a irritação com o mais famoso bordão do petista - "nunca antes na história deste país.. " -, o que considerava um desrespeito aos antecessores.
Um entusiasta do projeto de Transposição do São Francisco
Como presidente da República, Itamar Franco deu apoio ao projeto da transposição do rio São Francisco. Na época, o ministro da Integração Nacional era Aluízio Alves, que não só reabriu o debate, mas elaborou uma nova proposta para a transposição. Em 1993, Aluísio propôs a construção de um canal em Cabrobó, para retirar do São Francisco até 150m³/s de água, com o propósito de beneficiar áreas do Ceará e Rio Grande do Norte.
Em 1994, o Governo Itamar Franco chegou a anunciar que faria a licitação para que fossem feitos os projetos básicos das obras. Mas o projeto foi fulminado por um parecer do Tribunal de Contas da União que alegou ser o projeto prejudicial à produção das hidrelétricas, impedia o crescimento da irrigação em Minas Gerais e na Bahia, não fazia parte do planejamento da administração federal e era ignorado pelo Ministério da Agricultura.
A transposição é reivindicação antiga dos nordestinos, de mais de 150 anos. Aluízio e Itamar defendiam o uso racional e múltiplo do rio São Francisco. Aluízio foi ministro de Itamar entre 8 de abril de 1994 e 1º de janeiro de 1995. Para assumir o cargo, Aluízio se licenciou do seu sexto mandato de deputado federal, para o qual tinha sido eleito em 1990. Aluízio faleceu em Natal, vítima de isquemia cerebral, em 2006.
Vida pesssoal marcada por romances
O universo feminino é um capítulo à parte na trajetória pública de Itamar Franco. Supostos namoros, romances e affaires do ex-presidente se tornaram parte do noticiário nacional, em alguns casos envoltos em aura de escândalo. As imagens de Itamar ao lado de Lílian Ramos, num camarote do carnaval do Rio em 1994, correram o mundo. A modelo, que havia desfilado com os seios à mostra, mandando beijinhos para o presidente, se postou ao lado do chefe da nação vestindo apenas uma camiseta e sem calcinha. E foi fotografada assim.
Quando assumiu a Presidência da República, o ex-presidente Itamar Franco já era divorciado de Anna Elisa Surerus - moça elegante e rica da sociedade de Juiz de Fora -, com quem teve duas filhas, Giorgiana e Fabiana. Ao chegar ao Palácio do Planalto, Itamar mantinha um relacionamento discreto com Lisle Heusi de Lucena, filha do ex-senador Humberto Lucena. Já no governo de Minas, surgiram rumores de um romance do ex-presidente com sua ajudante de ordem, a tenente da Polícia Militar, Kênia Prates, com quem o então governador chegou a ser fotografado de mãos dadas.
Kênia foi substituída pela capitã Doralice Lorentz Leal, que Itamar assumiu oficialmente como namorada. O romance do governador com a discreta e sisuda ajudante de ordem não chegou a incomodar a corporação, até que Doralice foi promovida ao posto de major, em 2001.
Em maio daquele ano, oito oficiais da PM mineira impetraram mandado de segurança contra ato do governador, contestando a promoção e alegando que houve privilégio e os critérios para promoção da corporação - de merecimento, antiguidade ou ato de bravura - não foram atendidos. Doralice não perdeu o posto.
No entorno de Itamar, entre os fiéis aliados de Juiz de Fora, sempre se destacavam duas mulheres: Ruth Hargreaves e Neuza Mitterhoff. A primeira é irmã do ex-ministro Henrique Hargreaves, ocupou o cargo de secretária da Presidência e esteve ao lado do ex-presidente em todas as campanhas eleitorais que ele disputou. Já Dona Neuza atuava como uma espécie de guardiã de Itamar, com quem trabalhava há mais de 40 anos. Costumava fazer o papel de assessora de imprensa, comandava o escritório político em Juiz de Fora e assessorava o ex-presidente inclusive em sua residência.
#Fonte: Tribuna do norte
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Itamar Franco foi um dos mais destacados e comentados políticos mineiros das últimas décadas
Itamar foi um dos mais destacados e comentados políticos mineiros das últimas décadas. Para o país, surgiu na eleição presidencial de 1989, como candidato a vice de Fernando Collor de Mello. Terminou por assumir a Presidência da República após o impeachment do ex-governador alagoano, com quem vivia às turras.Mesmo entre os mais críticos, Itamar costumava ser reconhecido pela retidão ética. Igual reconhecimento ele sempre cobrou em relação ao legado da estabilidade econômica do País, com o lançamento do Plano Real durante seu governo, e política, com a transição bem sucedida após o desastroso desfecho da gestão Collor.
Com seu indefectível topete, o ex-presidente também chamou muita atenção pelo estilo intempestivo, muitas vezes enigmático. Protagonizou situações embaraçosas e embates memoráveis. Se dizia nacionalista, mas abusava mesmo era das retóricas e referências às "montanhas de Minas".
Como político, o engenheiro Itamar gostava dos cálculos bem pessoais. Orgulhava-se de ter sido fundador do MDB, posterior PMDB, mas não fazia cerimônia: deixava o partido toda vez que seus interesses eram contrariados.
O ex-presidente também melindrava facilmente e não raro surpreendia aliados com rompantes de fúria. Atribui-se a Tancredo Neves a frase de que Itamar guardava o "ódio na geladeira". Em um ponto, porém, detratores e apoiadores concordam: na política, o acaso costumava conspirar a seu favor.
Carreira política
Itamar nasceu em 28 junho de 1930 a bordo de um navio de cabotagem, no mar entre o Rio de Janeiro e Salvador. A mãe, dona Itália Cautier, havia ficado viúva de Augusto César Stiebler Franco pouco antes do nascimento do filho e o registrou na capital baiana, onde morava um tio.
Mas Itamar cresceu e tomou gosto pela política em Juiz de Fora (MG), origem de sua família. Estudou no Granbery, o mais tradicional colégio da cidade da Zona da Mata mineira. Na rigorosa instituição, vinculada à Igreja Metodista, se tornou destaque do time de basquete.
Concluiu o curso Engenharia Civil em 1955 e naquele mesmo ano estreou na política se filiando ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Em vão, tentou se eleger vereador em 1958 e vice-prefeito, em 1962. Alcançou o primeiro cargo público - a prefeitura da cidade - cinco anos depois, já filiado ao antigo MDB após o golpe militar de 1964 e o estabelecimento do bipartidarismo. Ficou no Executivo municipal até 1971. No ano seguinte, conquistou um novo mandado na prefeitura, mas em 1974 renunciou e foi eleito senador por Minas Gerais.
Já no PMDB, após o restabelecimento do pluripartidarismo, Itamar foi reeleito para mais um mandato de senador em 1982, na chapa que levou Tancredo Neves ao governo de Minas. Em 1986, deixou o PMDB e filiou-se ao PL para disputar o governo de Minas. Acabou derrotado justamente pelo peemedebista Newton Cardoso, que havia lhe fechado as portas no antigo partido.
Itamar voltou ao Senado, participou dos trabalhos da Assembleia Constituinte, mas antes de encerrar o mandato aceitou o convite do então jovem governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello, para compor como vice a chapa vitoriosa na campanha presidencial de 1989. O senador por Minas deixou então o PL para ingressar no obscuro Partido da Reconstrução Nacional (PRN).
A mineirice e a volta do Fusca
As rusgas com Collor começaram ainda na campanha. Tanto que o presidenciável teria solicitado uma consulta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para saber se poderia trocar seu candidato a vice.
"República do pão de queijo" - Com o impeachment, Itamar assumiu formalmente a Presidência em dezembro de 1992. Já havia se desligado do PRN e procurava cada vez mais acentuar as diferenças com o ex-presidente, acossado por uma sucessão de denúncias de corrupção.
Propôs uma política de entendimento nacional, mas sua gestão derrapava na escolha do primeiro escalão. Itamar levou para o primeiro escalão da administração federal antigos companheiros de Juiz de Fora e seu governo passou a ser conhecido como a "república do pão de queijo". Nos pronunciamentos oficiais à nação, adotou o bem mineiro "Moços e moças" e estimulou o relançamento do modelo Fusca.
Itamar também inaugurou no seu governo presidencial uma nova forma de tratar denúncias de corrupção. Em novembro de 1993, afastou seu então chefe de Casa Civil, Henrique Hargreaves, para que ele pudesse provar que era inocente das acusações de irregularidades no exercício do cargo. O ministro e amigo voltou ao posto meses depois. Desde então, a "solução Hargreaves" sempre costuma ser lembrada durante períodos de crise no primeiro escalão.
Para cientistas políticos, o momento crucial do governo Itamar, porém, se dá mesmo com a chegada de Fernando Henrique Cardoso, que assume o Ministério da Fazenda e sua equipe econômica lança em março de 1994 a Unidade Real de Valor (URV) - índice que fez a transição do regime inflacionário para o da estabilidade econômica até o lançamento da nova moeda nacional, o real.
"Itamar foi um personagem errático, seu acerto foi chamar o Fernando Henrique Cardoso", avalia o professor de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Carlos Ranulfo. Já para Rubem Barboza Filho, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Itamar demonstrou nesse episódio "enorme cálculo político". "Uma aposta que só um político audacioso poderia fazer", observou.
Sucesso do Real impulsionou eleição de FHC
O sucesso do plano econômico impulsionaria a eleição de FHC naquele ano. Itamar ganhou como prêmio as embaixadas brasileiras em Portugal e na Organização dos Estados Americanos (OEA), mas sonhava mesmo era em voltar ao Palácio do Planalto. Ele se sentiu traído quando o Congresso aprovou a reeleição e rompeu relações políticas com seu ex-ministro em 1998. Itamar acusou Fernando Henrique de interferir na convenção extraordinária do PMDB, que lhe tirou a chance de disputar a Presidência naquele ano.
Desta vez tendo como vice Newton Cardoso, Itamar então se aventura na disputa pelo governo de Minas e derrota o tucano e então candidato à reeleição Eduardo Azeredo, no segundo turno. Sua gestão é marcada pela determinação oposicionista ao presidente reeleito, pelos atos espalhafatosos e a frouxidão fiscal.
Já nos primeiros dias de mandato, em janeiro de 1999, o governador Itamar decreta moratória de sua dívida com a União. Passa a cobrar um ajuste de contas alegando que o Estado nos anos anteriores teria assumido investimentos de responsabilidade do governo federal, como a recuperação e manutenção de BR´s.
O arroubo do ex-presidente provocou um abalo nos mercados financeiros internacionais, fazendo despencar as cotações dos títulos da dívida externa brasileira, num cenário que antecedeu a desvalorização do real. A união reage determinando a retenção de repasses do Fundo de Participação dos Estados (FPE) para Minas.
As relações com Lula e Fernando Henrique
AAssim que assumiu o Palácio da Liberdade, Itamar de pronto empreendeu também uma cruzada política e foi à Justiça para anular um acordo fechado no governo anterior, no qual acionistas minoritários da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) - as americanas Southern Electric e AES - tinham poder para vetar decisões estratégicas da empresa controlada pelo governo estadual.
Sua administração ficou ainda marcada pela quixotesca operação militar contra a privatização de Furnas Centrais Elétricas. No segundo semestre de 1999, Itamar ordenou o envio de 2,5 mil homens da Polícia Militar para exercícios de guerra na represa localizada na cidade de Capitólio, no sudoeste de Minas. Ameaçou até desviar rios para impedir a venda da estatal. A manobra militar rendeu manchetes e Itamar foi alvo de chacotas na imprensa nacional.
Ele também flertou com movimentos de sem-terra e, para fustigar FHC, no ano seguinte ameaçou enviar tropas da PM para impedir a presença de soldados do Exército que protegiam as entradas da fazenda Córrego da Ponte - de familiares do tucano -, em Buritis (MG). Soldados foram deslocados para a portaria da propriedade com o objetivo de evitar eventual invasão de integrantes do MST. No fim das contas, de prático, Furnas não foi privatizada, o PT acabou deixando o governo e a dívida do governo mineiro com a União foi novamente repactuada no início de 2000. No fim de seu mandato, sem dinheiro para pagar o 13º salário do funcionalismo estadual, o então governador foi obrigado a uma reconciliação com o presidente Fernando Henrique. Após a costura de um acordo que previa a transferência da administração de estradas federais para o Estado, FHC foi recebido com tapete vermelho no Palácio da Liberdade. Em troca, garantiu repasse de recursos para o pagamento do 13º. A Córrego da Ponte foi vendida anos depois.
No plano federal, Itamar apoia a eleição do petista Luiz Inácio da Silva e como prêmio ganha o cargo de embaixador do Brasil na Itália - posto que ocupou nos anos de 2004 e 2005. O ex-presidente, porém, costumava se ausentar por longos períodos do renascentista e luxuoso Palazzo Doria Pamphili - imóvel que abriga a representação brasileira em Roma. Itamar deixou a embaixada na Itália e rompeu de vez com Lula depois que seus apadrinhados foram retirados do comando de Furnas. O ex-presidente nunca escondeu a irritação com o mais famoso bordão do petista - "nunca antes na história deste país.. " -, o que considerava um desrespeito aos antecessores.
Um entusiasta do projeto de Transposição do São Francisco
Como presidente da República, Itamar Franco deu apoio ao projeto da transposição do rio São Francisco. Na época, o ministro da Integração Nacional era Aluízio Alves, que não só reabriu o debate, mas elaborou uma nova proposta para a transposição. Em 1993, Aluísio propôs a construção de um canal em Cabrobó, para retirar do São Francisco até 150m³/s de água, com o propósito de beneficiar áreas do Ceará e Rio Grande do Norte.
Em 1994, o Governo Itamar Franco chegou a anunciar que faria a licitação para que fossem feitos os projetos básicos das obras. Mas o projeto foi fulminado por um parecer do Tribunal de Contas da União que alegou ser o projeto prejudicial à produção das hidrelétricas, impedia o crescimento da irrigação em Minas Gerais e na Bahia, não fazia parte do planejamento da administração federal e era ignorado pelo Ministério da Agricultura.
A transposição é reivindicação antiga dos nordestinos, de mais de 150 anos. Aluízio e Itamar defendiam o uso racional e múltiplo do rio São Francisco. Aluízio foi ministro de Itamar entre 8 de abril de 1994 e 1º de janeiro de 1995. Para assumir o cargo, Aluízio se licenciou do seu sexto mandato de deputado federal, para o qual tinha sido eleito em 1990. Aluízio faleceu em Natal, vítima de isquemia cerebral, em 2006.
Vida pesssoal marcada por romances
O universo feminino é um capítulo à parte na trajetória pública de Itamar Franco. Supostos namoros, romances e affaires do ex-presidente se tornaram parte do noticiário nacional, em alguns casos envoltos em aura de escândalo. As imagens de Itamar ao lado de Lílian Ramos, num camarote do carnaval do Rio em 1994, correram o mundo. A modelo, que havia desfilado com os seios à mostra, mandando beijinhos para o presidente, se postou ao lado do chefe da nação vestindo apenas uma camiseta e sem calcinha. E foi fotografada assim.
Quando assumiu a Presidência da República, o ex-presidente Itamar Franco já era divorciado de Anna Elisa Surerus - moça elegante e rica da sociedade de Juiz de Fora -, com quem teve duas filhas, Giorgiana e Fabiana. Ao chegar ao Palácio do Planalto, Itamar mantinha um relacionamento discreto com Lisle Heusi de Lucena, filha do ex-senador Humberto Lucena. Já no governo de Minas, surgiram rumores de um romance do ex-presidente com sua ajudante de ordem, a tenente da Polícia Militar, Kênia Prates, com quem o então governador chegou a ser fotografado de mãos dadas.
Kênia foi substituída pela capitã Doralice Lorentz Leal, que Itamar assumiu oficialmente como namorada. O romance do governador com a discreta e sisuda ajudante de ordem não chegou a incomodar a corporação, até que Doralice foi promovida ao posto de major, em 2001.
Em maio daquele ano, oito oficiais da PM mineira impetraram mandado de segurança contra ato do governador, contestando a promoção e alegando que houve privilégio e os critérios para promoção da corporação - de merecimento, antiguidade ou ato de bravura - não foram atendidos. Doralice não perdeu o posto.
No entorno de Itamar, entre os fiéis aliados de Juiz de Fora, sempre se destacavam duas mulheres: Ruth Hargreaves e Neuza Mitterhoff. A primeira é irmã do ex-ministro Henrique Hargreaves, ocupou o cargo de secretária da Presidência e esteve ao lado do ex-presidente em todas as campanhas eleitorais que ele disputou. Já Dona Neuza atuava como uma espécie de guardiã de Itamar, com quem trabalhava há mais de 40 anos. Costumava fazer o papel de assessora de imprensa, comandava o escritório político em Juiz de Fora e assessorava o ex-presidente inclusive em sua residência.
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Ex-presidente Itamar Franco morre aos 81 anos
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