As redes sociais possibilitam criar personagens que, por mais que se pretendam fictícios, acabam por revelar traços da personalidade do usuário. É o que afirma o psicólogo Pedro Del Picchia, que defendeu, na última semana, sua dissertação de mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, com o título ‘Entre o On e o Off – Personalidades que se criam: a interação entre pessoas nas redes sociais’. O psicólogo buscou traçar paralelos entre o comportamento on-line e off-line dos usuários de redes sociais – mais especificamente o Twitter – e analisar a dificuldade que é viver sob a sombra de um ‘avatar’, a identidade digital criada pelo internauta.
Por que o foco no Twitter?
O objeto é o Twitter, mas o trabalho é sobre a construção de uma personalidade que existe dentro da rede. Quando a web 2.0 veio, ela só deixou mais claro uma tendência que existia, que teremos que “ser alguém” em um ambiente novo. Escolher um nickname vai se transformando em mais do que só uma coisa temporária, como era nos chats do UOL. Agora, meu nome vai permear toda minha existência on-line dentro da determinada rede, tal qual o nome que meus pais me deram quando eu nasci. Só que a internet não é tão livre quanto as pessoas costumam dizer – principalmente o Facebook. Ele tem uma cláusula nos seus termos de uso que nos obriga a validar toda a informação que colocamos. A gente ‘aceita’, no termo 4.2, que tudo que postamos é verdade. Pensa o Renato ‘Bacon’ Andrade: antes era só Renato Bacon, até no Facebook. Só que ele teve a conta bloqueada exatamente porque não conseguiu provar que o nome dele era realmente Bacon. Já no Twitter não: lá você pode ser o que você bem entender – enquanto não se passar por outra pessoa. Pode ser o Paulo Vinicius Coelho, Deus, a Morte... ou o Bacon! No Twitter, quando a gente conhece alguém, é aquela pouca informação que temos dela que vai moldar nosso julgamento sobre ela. Começamos com a aparência, mas as primeiras frases, as palavras que ela dirige a nós ou aos outros que vai direcionar essa nossa percepção dela. Não sabemos se ela tem 25 anos, se é solteira, advogada e onde trabalha. Pensando que eu quero entender como se constrói uma identidade on-line, o Twitter é ótimo.
É possível observar uma disparidade entre uma personalidade on-line com a personalidade off-line do sujeito?
Eu quero apagar o próprio conceito de on-line ou de off-line, não existe mais isso há tempos. De smartphones ao Google Glass, o mundo está se construindo para o que a Academia já chama de “allways on”. Quando eu faço um check in em um restaurante, eu estou construindo uma personalidade que pode ser absolutamente pareada com aquela que já existe. E mesmo aquela que não é tão próxima, ela é ‘minha’ de qualquer forma. Os personagens mostram que os seus avatares, por mais que longe deles, são totalmente eles. Colocar que há uma discrepância é entender que o off é mais verdadeiro que o on e não é o que eu acredito.
Algumas pessoas criam personagens totalmente fictícios nas redes – a imagem de um conquistador barato, o humor nonsense, dentre outros. Há uma necessidade de criar uma segunda personalidade na rede? É uma espécie de ‘válvula de escape’ para a realidade?
O personagem existe no segundo que você resolve seu nome on-line, que pode ser idêntico ao seu nome off-line ou pode ser totalmente diferente. Mesmo dentro do mais profundo fake, há algo de real - tal qual aquela máxima “toda brincadeira tem um fundo de verdade”. As redes são formas de espetáculo, e não só aquela velha discussão da sociedade do espetáculo. Se você for descrever qualquer rede para alguém que não conhece, acaba virando uma forma teatral ou extremamente esquizofrênica. Você fala no Twitter para quem? É no like, fav, coment, mention, RT que a gente sabe, não só que existe outra pessoa lá, mas que essa pessoa leu o que a gente falou. E daí é ela que literalmente dá a nossa existência. Porque falar “sozinho” é coisa de louco, então "Ufa! Alguém me deu uma mention, eu não sou louco". E vou além: "Ufa, eu existo".
É possível dizer, então, que a personalidade do sujeito que está ali escrevendo no Twitter se revela mesmo através de seu personagem?
Sim! Sem a menor dúvida. A própria construção da identidade, não só no que ele escreve. Se antes se pensava um movimento do Off para o On, hoje é uma via de mão dupla.
A restrição de caracteres por mensagem contribui de alguma forma para a construção de uma outra identidade on-line?
É uma questão técnica-adaptativa somente. O bacana do Twitter é que ele é rápido e quase em tempo real, exatamente porque vai se parecendo com uma conversa. Quando você conhece alguém, você não fala por 2, 3 minutos sem parar. É um fluxo rápido, tempo-real, imediato. Então é a mecânica própria do Twitter que eu acho mais interessante. Principalmente o RT, porque é um momento em que você pode literalmente se travestir de outra pessoa. Não só eu ‘faço delas, as minhas palavras’, mas eu faço toda a existência dela, da foto ao nome.
O RT pode ser considerado "respaldo" a uma determinada opinião? Em outras palavras, seria um: "eu concordo com isso", ou um "eu gostei disso"?
Depende como é usado. A priori, sim, porque, de certa forma, a pessoa “encarna” o que a outra disse. Agora a comunicação nas redes está evoluindo e se tornando mais complexa. Ironias e sarcasmos estão começando a ganhar espaço, exatamente porque há uma percepção de identidade que existe. Eu só sei que você está sendo irônico porque eu te conheço bem o suficiente para saber que está sendo incongruente com você mesmo – o que na web 1.0 ainda era difícil, pois as personalidades que se criavam não eram consistentes o suficiente para respaldar essas figuras de linguagem. Se um político dá RT em uma pessoa e logo depois “responde” para seu publico dizendo o contrário do que a pessoa disse, ele também está usando o RT como uma forma de conversa. E é leviano achar que ele está concordando com o que a pessoa disse.
Quais foram os personagens que você entrevistou para a sua dissertação? Por que a escolha destes nomes?
Entrevistei o @interney [Edney Souza], exatamente porque ele é alguém conhecido, tem uma fama grande dentro e fora da internet como um homem de negócios e é conhecido pelo seu apelido desde as tenras eras da internet. É um dos primeiros avatares digitais. E entrevistei duas pessoas aqui de São Paulo: @hadoucken e @xylocaina [perfis anônimos no Twitter], que representam bem essa característica de viver entre o ON e o OFF. São personagens e ao mesmo tempo não são. Têm uma audiência relevante dentro do Twitter e se relacionam com pessoas que eles conheceram através do mundo virtual sob o avatar que escolheram. Daí eu queria saber a experiência de como é conhecer alguém sob essa máscara.
E o que pode depreender de cada uma destas entrevistas?
Apontando a dificuldade que é viver sob a sombra de um avatar e, ao mesmo tempo, receber o brilho e carinho de ser um avatar, pude perceber que não existe mesmo essa diferença. O ódio e o carinho que se recebem via rede são sentidos na pele. O avatar é ao mesmo tempo sólido e frágil. É tão difícil para o @Interney conseguir transparecer mais “humanidade” quanto para o@Hadoucken falar algo e ser levado a serio.
#Fonte: O Globo
O Fake Nas Redes Sociais
Reviewed by CanguaretamaDeFato
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