RN: Dia de Reis reúne fé, história, tradição e devoção popular em Natal


A devoção do natalense se expressa também nas histórias pessoais dos fiéis que participam da festa ano após ano | Foto: Magnus Nascimento

Celebrado no próximo dia 6 de janeiro, o Dia de Santos Reis mantém viva uma das tradições mais antigas de Natal, diretamente associada à fundação da cidade e à construção da Fortaleza dos Reis Magos, iniciada em 1598. Com mais de 370 anos de história, a celebração religiosa dos copadroeiros de Natal marca a Epifania do Senhor e reúne fiéis de diferentes bairros da capital potiguar e de outras cidades do Estado no Santuário Arquidiocesano dos Santos Reis, no bairro de Santos Reis, onde acontecem missas diárias, novenário, programação cultural e a tradicional procissão com as imagens originais dos Reis Magos pelas ruas da zona Leste.

“Os Santos Reis existem desde a evolução mais antiga do Estado. A construção do Forte chega aqui em 1598, no dia 6 de janeiro, e esse dia é dedicado aos Santos Reis”, afirma o padre Antônio do Vale, pároco do Santuário Arquidiocesano dos Santos Reis. Segundo ele, antes mesmo da oficialização da festa no local atual, a devoção já era mantida pela população. “Eu posso dizer que Santos Reis é uma festa popular. É a festa do povo, aquela devoção que o povo não deixou morrer”, completa.


A história do santuário acompanha o próprio desenvolvimento da cidade. A primeira capela dedicada aos Santos Reis foi construída nas dunas próximas à atual área militar do bairro, sem que restem vestígios da edificação. Posteriormente, o espaço religioso foi transferido para outro ponto até se estabelecer, em 1937, no local onde funciona atualmente o santuário, marco que deu início à celebração oficial da festa no formato conhecido hoje. Ainda assim, segundo o pároco, a devoção já existia muito antes da estrutura formal. A continuidade da festa ao longo dos séculos está associada à participação direta da população, que manteve viva a celebração independentemente das mudanças físicas do espaço religioso.


“A fé do povo é o que explica tudo isso. É a fé do povo que faz com que eles construam uma capela, que depois venham para esse lugar. Basta ver as procissões, como são grandes. A abertura da festa, com a carreata, foi enorme, com pessoas de todo Natal. A gente percebe que o povo tem um amor muito grande por Santos Reis”, destaca padre Antônio do Vale. Para ele, a identificação da população com a história dos Reis Magos permanece atual, especialmente pela simbologia da peregrinação e da simplicidade presente na narrativa bíblica.

Essa relação histórica também está materializada nas imagens originais dos Santos Reis preservadas no santuário. Enviadas a Natal em 1753 pelo rei de Portugal, Dom José I, como presente de sua esposa, Dona Maria I, à Capitania do Rio Grande, as imagens permaneceram na Fortaleza dos Reis Magos até 1910. Posteriormente, acompanharam as mudanças de localização da capela até se fixarem definitivamente no atual santuário. Para os fiéis, a presença dessas imagens reforça o vínculo entre fé, história e identidade cultural da cidade.


“São as imagens originais. Elas foram doadas justamente para ficar aqui. A importância disso é que a gente tem um povo peregrino, um povo que se identifica com a caminhada dos Reis Magos. Tem muita gente que vem com dificuldade, com problema de saúde, mas faz questão de fazer o percurso da procissão, justamente por conta da fé”, afirma o pároco. Segundo ele, o simbolismo da caminhada está presente até em detalhes das imagens, como as botas usadas pelos Reis Magos, que representam o ato de caminhar, evangelizar e ir ao encontro do povo.


Um dos maiores desafios para esta festa e as que virão está em perpetuar a fé entre as próximas gerações que, em razão das novas tecnologias, deixam de lado as tradições. Segundo o padre Antônio do Vale, a permanência da devoção vem em manter a data popular. “Santos Reis é uma festa popular, é a festa do povo. Não tem outra explicação para essa devoção ter atravessado tantas gerações. Isso se vê nas procissões, na participação, na forma como essa devoção continua viva até hoje”, considera o pároco.


Fé popular

A devoção se expressa também nas histórias pessoais dos fiéis que participam da festa ano após ano. Ana Verônica, 54, conta que a relação com os Santos Reis começou ainda na infância, mas se fortaleceu a partir de 2010, quando passou a frequentar o santuário com mais regularidade. “Sempre gostei muito dos Santos Reis através da minha avó. Depois, quando minha filha começou a participar do ministério de música, eu vim com mais frequência. Fui convidada a servir e desde 2010 estou fiel aqui, graças a Deus, por intercessão dos Santos Reis, que eu amo demais”, relata.


Para Ana Verônica, o Dia de Santos Reis é um momento de renovação. “Representa fé, gratidão e esperança. Eles foram os primeiros a adorar o nosso Senhor Jesus Cristo. A festa é muito espiritualizada e a gente fica feliz em servir na obra”, afirma. Ela relembra ainda um pedido feito pela saúde do irmão, que havia sofrido um infarto. “Entreguei aos Santos Reis e ele se restaurou. É essa fé que me faz voltar todos os anos”, completa.

Moradora do bairro de Santos Reis há 30 anos, Francinete Araújo, 74 anos, afirma que sua vida passou a girar em torno do santuário desde que se mudou para Natal, vinda de Florânia, no Seridó potiguar. “Representa fé, esperança, gratidão, tudo. Eu amo Santos Reis. A minha vida é essa, o santuário”, diz. Durante o período da festa, a casa da devota se transforma em ponto de apoio para equipes da Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Guarda Municipal e profissionais da saúde que atuam no evento.


Francinete associa a devoção aos relatos de graças alcançadas ao longo dos anos. “Eu já vi muitos milagres aqui. Tem gente que vem de longe, faz promessa, melhora, volta todo ano. Tem uma senhora que veio de Manaus com três tipos de câncer e hoje vem todo ano agradecer. É por isso que eu participo de tudo”, afirma. Para ela, a festa representa acolhimento e partilha, características que se repetem a cada edição da celebração.

A tradição também é vivenciada desde a infância por Lisângela Nascimento, 43. Ela relembra que a devoção começou após um problema de saúde enfrentado aos 12 anos. “Minha tia fez uma promessa na missa da meia-noite do dia 5 pedindo a minha cura. Três meses depois eu estava curada e no ano seguinte acompanhei a procissão descalça”, relata. Desde então, Lisângela seguiu participando das atividades da igreja e atua há 24 anos na organização da festa.


Para Lisângela, o Dia de Santos Reis vai além do aspecto religioso individual. “É um momento de devoção, de fé, de esperança, mas também de encontros e reencontros. Muita gente que saiu do bairro volta nessa época. A festa torna-se um grande encontro”, afirma. Buscando levar a fé entre as gerações da família, o primo de Lisângela, ainda criança, participará da encenação como um dos reis, além de estar presente em outras ações da Paróquia.

Festa terá missa às 00h no feriado


A programação da Festa de Santos Reis teve início no dia 28 de dezembro, com missa solene e carreata de abertura, e segue até o dia 6 de janeiro. Durante o período, são celebradas missas diárias às 9h e novenário à noite, sempre com um celebrante diferente. Após as celebrações, o público acompanha apresentações culturais, com grupos de louvor, bandas locais, reisado e pastoril, valorizando manifestações culturais da própria comunidade.

No sábado (3), 7ª noite da festa, a programação conta com missa às 9h e, à noite, novena às 19h, presidida pelo padre Francisco Flávio Herculano do Nascimento. A celebração tem como tema “Ser cristão é acolher, proteger e caminhar com os que estão longe de casa”. No domingo (4), 8ª noite, a programação inclui missa às 9h com celebração de batizados e, às 19h, novena presidida por monsenhor Lucas Batista Neto. O tema da noite é “Os pobres não são objetos de caridade, mas protagonistas do Reino de Deus”.


Na segunda-feira (5), dia anterior ao feriado, será marcada por uma programação intensa, iniciada às 5h com a Caminhada Penitencial em direção à Fortaleza dos Reis Magos, seguida pelo Ofício de Nossa Senhora e Santa Missa. À noite, às 19h, será celebrada a novena presidida pelo padre Francisco Clodoaldo Leitão, com o tema “A verdadeira fé se manifesta na solidariedade e no compromisso com os últimos”. A noite foi conduzida pela Pastoral Vocacional, religiosas das Congregações das Irmãs do Imaculado Coração de Maria e Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, além da Sociedade de São Vicente de Paulo.


No Dia de Santos Reis, feriado municipal em Natal, a programação começou à meia-noite com a Missa da Vigília, presidida pelo padre Cláudio Régio. Segundo o padre Antônio do Vale, essa é a retomada de uma tradição da festa que foi deixada de lado nos últimos anos, mas muito solicitada pelos fiéis. “Antigamente se juntava muito mais gente, o povo passava a noite em vigília aqui. Este ano estamos resgatando essa vigília de Santos Reis, com missa à meia-noite do dia 5 para o 6, como parte da tradição da festa”, relata.


Ainda no mesmo dia, às 6h, haverá a alvorada, seguida da Missa dos Enfermos às 7h, celebrada pelo padre Robson Paulo de Oliveira Silva, e da Missa dos Peregrinos às 9h, presidida pelo padre Willian Bruno dos Santos Costa. Às 16h, será celebrada a Missa de Encerramento, presidida pelo arcebispo metropolitano de Natal, Dom João Santos Cardoso, e, às 17h, ocorrerá a tradicional procissão com as imagens veneráveis dos Santos Reis Magos pelas ruas da região.






#Fonte: Tribuna do Norte 


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